ESPORTES: SÃO MARCOS DECIDE ENCERRAR CARREIRA - Veja um especial sobre o ídolo palmeirense

 

Aos 38 anos, Marcos Roberto Silveira dos Reis, maior ídolo da história recente do Palmeiras e goleiro do quinto título mundial da Seleção Brasileira (em 2002, na Coreia e no Japão), anunciou sua aposentadoria nesta quarta-feira. Marcos se reapresentou com o restante do grupo, conversou com o gerente de futebol César Sampaio e comunicou sua decisão de se aposentar usando um palavrão em tom de lamentação, com uma postura muito abatida.

A informação da aposentadoria foi repassada à imprensa em entrevista coletiva por César Sampaio, que foi companheiro de Marcos na maior conquista do Palmeiras, a Libertadores de 1999.

- Tivemos uma reunião com o Marcos agora, e ele oficializou que pendurou as chuteiras.

- Ele disse que ia refletir bastante nessas férias, conversou com os familiares, sinalizou que era o momento de parar e a gente engrandece a pessoa, o que ele representou e representa para instituição - emendou o gerente de futebol.

 

Amistoso de despedida e futuro no próprio clube

A assessoria do Palmeiras já confirmou que haverá um jogo de despedida, provavelmente no meio do ano. Mas ainda não há nada definido - nem adversário, nem data. Havia a possibilidade de a despedida ser no amistoso com o Ajax, marcado para o dia 14, no Pacaembu, mas o próprio Marcos pediu para não jogar.

- As pessoas que estão promovendo o jogo (com o Ajax) tentaram convencê-lo e ele disse que não queria. Até entendo também que podemos fazer algo melhor. Agora teria um prazo curto de tempo, temos de fazer um megaevento - disse César Sampaio.

- Ele deve viajar com a família, terá essas férias por merecimento. Conversamos bastante e ele ainda não tem essa posição de qual setor ele vai trabalhar. Pelo que eu conheço do Marcos, não o enxergo como alguém interno num cargo administrativo dentro de uma sala. Eu o vejo muito mais na parte esportiva e creio que deve ser mais útil lá.Na última renovação de contrato do goleiro, feita ainda durante a gestão Luiz Gonzaga Belluzzo, ficou acertado que Marcos poderia escolher uma função a ser exercida no próprio clube assim que parasse de jogar - seja administrativa, como dirigente, ao lado de César Sampaio, seja na comissão técnica, ao lado de Felipão, em cargo ainda a ser definido. Segundo Sampaio, Marcos ganhará mais dois meses de férias para se decidir e, então, comunicar sua decisão, já em março.

 

Em entrevistas recentes, concedidas durante "peladas" de fim de ano, Marcos vinha dizendo que caberia ao técnico Luiz Felipe Scolari decidir se ele continuaria ou não a jogar. Sampaio garantiu, porém, que a decisão foi do próprio goleiro. O último jogo de Marcos foi em 18 de setembro: empate em 1 a 1 com o Avaí, em Florianópolis. Coube ao volante Batista marcar o último gol sofrido pelo "Santo" em sua carreira.

Ficha técnica

Nome: Marcos Roberto Silveira Reis
Posição: Goleiro
Natural de: Oriente/SP
Nascimento: 4/8/73
Altura: 1,93m
Camisa: 12
Jogos: 530
Clubes: Revelado no Palmeiras
Títulos: Copa Libertadores (99), Brasileiro (93/94), Copa do Brasil (98), Mercosul (98), Copa América (99), Paulista (94/96/08), Torneio Rio-SP (00), Copa dos Campeões (00), Copa do Mundo (02), Brasileiro Série B (03), Copa das Confederações (05)
Perfil: Ídolo da torcida palmeirense, Marcos, ou "São Marcos", também serviu a Seleção Brasileira em 29 partidas e foi campeão da Copa América (99) e da Copa das Confederações (2005) mas seu grande auge, claro, foi a conquista da Copa do Mundo em 2002 como goleiro títular.

Lesões ajudaram na decisão de encerrar carreira, São Marcos realizou 530 jogos pelo Verdão

 

Poucos atletas carregaram um histórico de lesões tão grande como Marcos. A carreira do goleiro foi inteiramente marcada por contusões. Basta ver que, em seus 18 anos como profissional, ele fez “apenas” 530 jogos pelo Palmeiras, quase a metade do que seu amigo e contemporâneo Rogério Ceni, que já soma 1.016 pelo São Paulo. Marcos tem 38 anos. Ceni, que completará 39 no próximo dia 22, deve se aposentar somente em dezembro.

A primeira lesão grave ocorreu em 2000, quando fraturou o punho esquerdo. Por isso, os movimentos da mão esquerda de Marcos são limitados até hoje. Mas ele agradece o fato de não ter encerrado precocemente a carreira. Depois, o ídolo palmeirense acumulou uma série de outros problemas que chegou a elencar, em uma entrevista em abril do ano passado:

Os últimos momentos de Marcos com o Palmeiras foram doloridos não só pelo corpo cansado, mas também pelos resultados. A última vez em que o goleiro levantou uma taça foi no Paulista de 2008, quando superou a Ponte Preta. Depois disso a equipe penou nos Nacionais e na Libertadores do ano passado.- Já tive fratura na tíbia, no tornozelo direito. Cheguei a colocar uma placa, mas tirei porque me incomodava. Também tive problema no adutor, no punho e três vezes no antebraço. Também tive na clavícula, cabeçada na cara. Não tem como não ter nada. Você corre contra todo mundo. Os atacantes e os zagueiros estão vindo e você saindo contra eles. Faz parte da profissão - salientou na ocasião.

Os maus resultados, aliados ao dolorido das lesões que já sofreu, fizeram com que o atleta encerrasse a carreira.

Enredo de filme

A história de "São Marcos" pelo Palmeiras, como qualquer romance, tem enredos variados e vai virar filme – um documentário a ser lançado durante as festas do centenário do clube, em 2014. Titular desde o fim dos anos 90, quando assumiu o posto deixado por Velloso, Marcos passou poucas e boas com o Alviverde. Nos melhores momentos guardados na sua memória estão a conquista da Libertadores de 1999 e a volta para a Série A do Nacional, em 2003. Dos dissabores, Marcos se lembra da perda do Mundial de Clubes para o Manchester United (1 a 0, em 99) e a derrota para o Vitória na Copa do Brasil de 2003 por 7 a 2.

- Admiti que falhei no gol do Manchester e até cheguei a falar que estava bem se a partida fosse para os pênaltis. Se isso acontecesse, teria me consagrado. É um peso que carrego. A furada no gol do Vitória (o sétimo) passam até hoje na TV. Essas coisas fizeram com que eu aprendesse muito. Na final da Libertadores e durante a Copa de 2002 fui perfeito, sem erros. E na Série B tive muita responsabilidade naquele ano, mas tudo correu como imaginei – relembrou, em entrevista recente.

Marcos Palmeiras camisa (Foto: Ag. Estado)

 

Enquanto a maioria dos brasileiros lembra de Marcos pelas suas defesas com a camisa da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo de 2002, na cabeça dos palmeirenses a primeira imagem que vem é a defesa de um pênalti cobrado por Marcelinho Carioca, então do Corinthians, na semifinal da Libertadores de 2000.

Na sequência da competição, o Verdão não foi campeão. Perdeu para o Boca Juniors, da Argentina. Só que aquela defesa valeu por um título. Sem exagero algum. O roteiro daquela eliminação do Corinthians, obcecado até hoje por uma conquista de Libertadores, foi perfeito para os palmeirenses.

- Apesar de alguns comentários de que adiantei, essa regra de o goleiro ter de pular na linha é recente, de dois, três anos atrás. Adiantei mesmo, até porque podia. É uma das defesas que torcedor considera mais importante na história do clube – disse Marcos, em maio de 2011, ao site oficial do clube.

No primeiro duelo daquela semifinal, em 30 de maio, o Corinthians venceu o Palmeiras por 4 a 3, dando grande passo para a inédita final. Mas o Verdão foi para cima no jogo da volta, no dia 6 de junho, e devolveu a derrota, vencendo o Timão por 3 a 2. Como não tinha regra de gol qualificado, a decisão foi nos pênaltis.

 

E nas penalidades brilhou a estrela de Marcos. Brilhou dentro de um roteiro recheado de emoção, rivalidade, paixão... A decisão estava 5 a 4 para o Palmeiras. Marcelinho Carioca, maior ídolo do Timão na época, partiu para cobrança. Assim que bateu na bola, o meia ameaçou correr para comemorar. Mas...Marcelinho não imaginava que Marcos poderia pegar aquele chute no seu canto direito. Porém, em mais um “milagre” digno de santo, o camisa 12 do Palmeiras espalmou, para desespero dos corintianos e alegria máxima dos palmeirenses. O Morumbi explodiu em verde e branco naquele épico momento.

Aos fãs do Verdão certamente aquele lance minimizou (e muito!) a tristeza pelo vice da Libertadores. Afinal, poderia ser o bi, já que o Palmeiras vinha da conquista do torneio em 1999, também eliminando o rival Corinthians no meio do caminho. Marcos, com sua genialidade, fez uma simples defesa virar um “título” que não foi.

Com seu carisma, Marcos deixará muitas saudades

Dos 21 anos da carreira de Marcos, 19 foram com a camisa do Palmeiras. Foi no Palestra Itália, aliás, que o goleiro se consagrou no futebol. Só que ao mesmo tempo em que brilhou com sua alma alviverde, o jogador conquistou o Brasil com seu carisma. Muito pela conquista do pentacampeonato com a Seleção Brasileira.

 

Por ter vestido apenas uma camisa de relevância no futebol (seu outro clube foi o Lençoense), Marcos poderia ter sido um daqueles jogadores odiados pelos rivais. Mas não foi. Pelo contrário. Até mesmo os corintianos, santistas e são-paulinos, para ficar apenas no estado de São Paulo, admiravam o goleiro.

Com jeito simples de falar e na maioria das vezes bem-humorado, Marcos não conquistou apenas os rivais diretos. A admiração também aumentou nacionalmente em 2002, quando o goleiro foi um dos líderes da conquista da Copa do Mundo de 2002, na Coréia do Sul e no Japão. Enfim, São Marcos transcendeu a rivalidade.

Naquele Mundial, Marcos foi decisivo. Fez defesas importantes, em especial nos mata-matas. Na decisão contra a Alemanha, no dia 30 de junho daquele ano, o goleiro teve uma ótima atuação. E sua imagem, ajoelhado, com os dedos apontados para cima e a bandeira brasileira nas costas ficou eternizada.

Não foi apenas o título mundial que aproximou Marcos do povo. Seu jeito “caipira” (o goleiro nasceu em Oriente, no interior de São Paulo) e simpático ajudou muito. Na hora das entrevistas, o jogador sempre arrancou gargalhadas contando suas histórias. E até mesmo nas horas mais complicadas a torcida se identificou com ele.

Sangue quente, o goleiro nunca teve papas na língua. Jamais se omitiu e pegou pesado algumas vezes com os companheiros na hora de reclamar. Mas foram essas atitudes que construíram o que muitos dizem ser um dos jogadores mais “gente boa” do futebol brasileiro. Marcos vai deixar saudade.

E vai deixar saudade nos palmeirenses, nos corintianos, que teriam motivos para odiá-lo, nos são-paulinos, nos santistas, nos flamenguistas, nos vascaínos, nos gremistas, nos colorados... Enfim, São Marcos deixará saudade em todos aqueles gostam de futebol, em todos aqueles que vibraram com o penta da Família Scolari.

Ídolo Oberdan Cattani, Lamenta decisão de Marcos

 

Oberdan Cattani, Valdir Joaquim de Moraes, Zetti, Velloso, Leão e Marcos. A lista dos que fizeram história defendendo a meta do Palmeiras é grande. Mas apenas um se tornou Santo: Marcos Roberto Silveira Reis, ou simplesmente São Marcos. Ele anunciou a aposentoria nesta quarta-feira. E a decisão do eterno camisa 12 do Verdão deixou muita gente triste, entre eles: Oberdan Cattani.

Ídolo do Palestra Itália entre as décadas de 40 e 50, Oberdan lamentou a decisão de Marcos. Na sua opinião, o Santo ainda tinha condições de voltar aos gramados.

- É lamentável. Ele vinha jogando bem, os únicos problemas  eram as contusões: quando sarrava o braço, era o joelho. Mas ele ainda poderia continuar jogando. Ele nunca foi um jogador extravagante, de passar a noite fora, se comportava como um verdadeiro atleta - disse.

Oberdan acredita que cada jogador precisa saber a hora exata de parar. E a muralha crê que tenha pendurado as chuteiras no momento exato.

- Eu parei na hora certa, com 36 anos. Na verdade fui expulso do Palmeiras por um presidente (Pascoal Giuliano), depois fui para o Juventus e parei. Fiquei muito triste, pois sempre amei o Palestra, e imagino que o Marcos também esteja assim. Não é fácil parar, ainda mais para quem fez história no clube - explicou.

O dono das maiores mãos que o Palmeiras já teve, entretanto, não está preocupado com o futuro do gol do Alviverde.

- Nós sempre tivemos grandes goleiros, e boa parte deles formados pelo clube. O Palmeiras não precisa se preocupar com isso, temos sorte. Além disso, aquele outro menino  (Deola) também está indo muito bem. Agora é torcer para que o Palmeiras volte a dar alegrias, quem sabe o Marcos nesse novo cargo que irá assumir no clube não ajude.

Quem foi Oberdan

Nascido em Sorocaba, interior de São Paulo, Oberdan Cattani foi entregador de jornal e caminhoneiro antes de se tornar um dos maiores mitos do Palestra Itália. Ele também defendeu as cores do extinto Fortaleza de Sorocaba e do São Bento.

Aos 20 anos, Oberdan passou em um teste no Palmeiras. Lá ele conquistou diversos títulos, tendo participado da campanha vitoriosa da Copa Rio de 1951, que é considerada pelos palmeirenses um Mundial de Clubes.

Em 1954, a Muralha foi expulsa do Palmeiras pelo presidente da época, Pascoal Giuliano, e foi jogar no Juventus da Mooca. Um ano depois ele anunciou a aposentadoria.
Oberdan Cattani, ex-goleiro do Palmeiras (Foto: Divulgação/Site Oficial do Palmeiras)

Maior ídolo do Palmeiras nos últimos 30 anos, o goleiro Marcos decidiu encerrar a carreira profissional, aos 38 anos. Dezenove deles dedicados ao Alviverde paulista. Dedicação que deverá garantir ao goleiro um busto localizado na sede social do clube, que possui homenagens a três ídolos palmeirenses que, como Marcos, só defenderam o Palmeiras como profissionais: Junqueira, Valdemar Fiúme e Ademir da Guia. 

Fonte: globoesporte