VEJA A ENTREVISTA COMPLETA DO MENTOR DO ASSASSINATO E EX COMPANHEIRO DE PAOLICCHE

01/12/2011 08:18

 

Ocupando uma minúscula cela junto com outros 30 detentos, o ex-bancário Vagner Eising Ferreira Pio, 25 anos, mentor confesso da morte do ex-secretário municipal de Fazenda Luiz Antonio Paolicchi, só aceitou conversar com a reportagem de O DIÁRIO após ser orientado por seus advogados, que fizeram questão de acompanhar – e gravar – toda entrevista.

Aparentemente abatido e demonstrando uma certa vergonha pela situação em que se encontra, Vagner decidiu contar os motivos que o levaram a decidir pela morte de seu companheiro, com o qual havia firmado matrimônio há pouco mais de três meses, em Londrina.

Acadêmico do terceiro ano do curso de Direito e sem antecedente criminal, Vagner nega ter matado Paolicchi por interesse financeiro e diz que só requereu o direito de pensão junto ao INSS porque estava sem dinheiro para pagar os advogados.

Segundo ele, Paolicchi não tinha mais patrimônio e teria interesse em matá-lo para se apoderar dos valores de uma ação trabalhista, que ainda tramita na Justiça. "Ele me batia, me maltratava, me proibia de sair do apartamento e me ameaçava de morte", diz ele, acrescentando que se arrependeu do crime e que chegou a procurar a polícia, junto com seu advogado, para confessar a autoria.

O Diário: Em que ano você conheceu o Paolicchi e em que circunstância?

Vagner: Tem quase dois anos que conheci ele. Foi numa festa. Ele pediu a algumas pessoas próximas o número do meu telefone, entrou em contato comigo e a gente se conheceu. Tem dez meses que eu morava junto com ele.

Vocês começaram a namorar logo em seguida?

Não, não. Levou um tempo...

O convite para morar junto partiu dele ou foi iniciativa sua?

Eu tinha saído do meu trabalho, estava passando dificuldade financeira, ia voltar para a minha cidade (Paranavaí) e aí ele me propôs ajuda, propôs ir morar com ele.

Que tipo de ajuda ele te propôs?

Ele disse que se a gente ficasse junto ele pagaria a minha faculdade, que eu iria continuar estudando porque o meu curso estava trancado porque eu havia saído do emprego. E aí ele propôs: então você volta a estudar e vem morar comigo. Mas de fato ele não pagou a faculdade. Se for puxar o histórico da faculdade, os boletos estão todos em atraso.

Como era o relacionamento de vocês no inicio?

No inicio da relação foi tranqüilo, mas foi piorando cada vez mais.

O Paolicchi usava algum tipo de droga ou você nunca notou nada?

Notei. Teve vez que ele usou na minha frente, teve vez que ele usou escondido.

Que tipo de droga?

Eu só vi ele usando cocaína.

Isso era constante ou esporádico?

Esporádico. Ele usava geralmente no final de semana.

Quando ia em alguma festa?

Não, em casa. Só em casa. Em festa, nunca. Nunca vi.

O comportamento entre vocês era normal ou mudou com o passar do tempo?

Mudou. No começo era uma coisa e depois do primeiro mês já mudou. A situação foi ficando pior cada dia mais.

O que acontecia?

Ele limitava a minha liberdade, eu não podia sair do apartamento. Na verdade eu estava preso dentro do apartamento com ele.

Ele tinha medo de te perder?

Ele tinha medo de me perder e perder o que ele tinha em mente também que é a questão da união estável.

Vocês se casaram em julho?

Não tenho a data certa, mas acho que foi no meio do ano.

De quem partiu a proposta de firmar uma união estável?

Foi ideia dele, orientado pelo advogado do Daniel Dantas (banqueiro), que ele tinha contato. Ele tinha contato com o advogado, não sei bem que tipo de contato que eles tinham. Ele me falou que o advogado o orientou a fazer a união estável para poder, através desta união estável, paralisar os processos que estavam em andamento, com execução do patrimônio dele, que está todo alienado, tudo indisponível.

Com o contrato de união estável ele deixaria de perder alguma coisa?

Ele poderia deixar de perder alguma coisa ou ele poderia ganhar tempo, que era o que ele mais se preocupava.

Você aceitou esta proposta (de casar)?

A principio não. A principio eu recusei. Ele tentou fazer com uma advogada de Londrina e ela se propôs a fazer. Mas quando ele falou que era em regime de comunhão total de bens ela se recusou a fazer porque ela levantou o histórico dele e não quis fazer. Aí ele foi atrás de outro advogado, em Maringá, mas ele disse que nunca havia feito e não iria mexer com isso, só que o cartório faria isso sem estar representado por nenhum advogado. Então ele entrou em contato com o cartório e fizeram o documento.

Por que Londrina e não Maringá?

Por que ele não queria ter exposição aqui, do que estava acontecendo.

Ele chegou a te pedir sigilo sobre o casamento?

Pediu, pediu.

Até mesmo da sua família?

Sim, a minha família nem sonhava com essa situação toda.

Quando a sua família ficou sabendo da união estável?

Ficou sabendo poucos dias atrás, quando eu voltei para Paranavaí, quando teve toda repercussão do caso, o meu carro (Fiat Idea em que Paolicchi foi achado morto) que estava envolvido na situação toda... aí eu tive de contar pra minha mãe.

Ela aceitou?

A principio não. Quando ela ficou sabendo da história ela não aceitou de prontidão. Ela não aceitou eu estar envolvido com uma pessoa como o Paolicchi. O restante foi mais fácil.

O que começou a acontecer entre você e o Paolicchi que acabou interferindo na relação?

Ciúmes, ele me batia, a questão de eu estar dependendo financeiramente dele, a questão do interesse dele numa ação que eu tinha contra o Banco Bradesco, que eu movi quando saí do banco.

Em que data você moveu esta ação?

Em 2010. Ainda está tramitando. Eu ganhei em primeira instância. O banco recorreu...

Qual o valor da ação?

O valor eu não sei. Ele (Paolicchi) estimava em torno de R$ 150 mil e R$ 200 mil. A ação trabalhista não tem um valor definido na causa.

E como ele chegou a este cálculo?

Mais pela experiência. Ele deve ter passado por vários processos trabalhistas por causa da empresa Água Safira.

Ele chegou a comentar com você o que seria feito com o dinheiro da indenização?

Ele pediu o dinheiro para pagar dois agiotas. Eu falei para ele que não tinha condições, que eu estava pensando em ajudar a minha família, quitar as minhas dívidas, quitar o carro, que estava atrasado, quitar as dívidas que eu já tinha.

Ele chegou a ficar bravo com a sua decisão?

Sim, sim. Ele queria o dinheiro para quitar a situação dele.

Você tinha medo de que ele fizesse algo para você?

Eu vi ele conversando ao telefone e dizendo que precisava apagar (matar), mas que precisava esperar o dinheiro sair. Eu juntei um mais um e tinha certeza que era eu, fora as ameaças que ele já tinha feito. Eu tentei sair várias vezes do apartamento, juntar roupas, só que ele sempre ameaçava. Falava que se eu saísse iria mandar me apagar, que eu iria levar uma sova. Eu sei que ele tinha contato com bastante gente aqui em Maringá, gente barra pesada.

Circulam boatos de que o Paolicchi já havia mandado bater em ex-namorados dele. Você chegou a ouvir isso?

Ouvi, e ouvi também da boca dele uma história de que ele tinha mandado matar um rapaz. Só que esse assassinato teria acontecido no tempo em que ele estava na prefeitura.

Você sabe o nome deste rapaz?

Não sei, não sei quem é.

Você tinha medo?

Tinha. Ele já estava me coagindo. Eu não sei se ele contou isso pra me assustar, eu ficar coagido, não sair do apartamento, conviver com ele até a situação dele melhorar, a minha ação sair e ele pegar o dinheiro e pagar os credores que ele tinha. Porque a união estável continuava em andamento...

Você chegou a contar estes problemas para alguém?

Não. Mantinha silêncio de tudo. Contei para uma amiga só, cheguei para ela e contei o que estava acontecendo.

Ela pode confirmar isso?

Pode, pode.

Pelo que tudo indica, a relação chegou a um ponto insustentável...

Eu não tinha mais como suportar ficar lá dentro.

Foi daí que surgiu a idéia de eliminar o Paolicchi? Acabaria com o seu sofrimento?

Exatamente.

E quando essa decisão foi tomada?

Há um mês, dois meses atrás.

Você pediu ajuda a quem?

Para o meu cunhado (Eder). Pedi ajuda porque precisava de alguém para ajudar porque ei não iria ter coragem de fazer. Ele (Eder) sabia o que eu estava passando porque a minha mãe tentava falar comigo e não conseguia, sabia que eu não estava mais indo a Paranavaí, eles não tinham notícias minha...

Você chegou a oferecer dinheiro ou promessa de pagamento futuro para que o Eder cometesse o crime?

Nenhuma compensação financeira. Ele fez isso mais por ver a situação que eu estava passando em Maringá, para me defender, me proteger. Ele sabia como eu estava vivendo. Eu cheguei e contei a verdade para ele. Foi mais por defesa mesmo.

A polícia diz que o seu interesse era pelo patrimônio do Paolicchi, bem como pela pensão que você teria direito caso ele morresse. Isso é verdade?

Essa questão do interesse patrimonial, como a mídia veiculou – eu sei das notícias pela mídia -, que ele teria muito mais dívidas do que patrimônio. Então interesse patrimonial não existe porque não tem como. Eu teria mais a perder nesta situação toda do que a ganhar. Porque dependendo como as coisas forem conduzidas daqui para frente ainda é capaz de ficar dívidas para mim. Teria que assumir as dívidas dele por causa do regime de comunhão de bens.

Mas houve interesse pela pensão?

Quanto ao pedido de pensão, foi a única saída que eu tive para poder contratar um advogado.

Você chegou a ingressar com o pedido (junto ao INSS)?

Entrei com o pedido há pouco tempo atrás.

Qual seria o valor?

Não sei. O advogado não fez cálculo, não calculou nada.

Quanto o Paolicchi recolhia por mês ao INSS?

Não sei, eu não vi os recolhimentos. Ele não falava. O advogado falou que iria levantar se ele fazia o recolhimento, pra ver se ele tinha direito. Aí o advogado levantou e falou: olha, você tem direito. Daria para entrar com o pedido para que eu pudesse pagar os advogados.

Muita gente comenta que o Paolicchi tinha dinheiro escondido em outros locais. Ele chegou a falar alguma coisa para você?

Ele falou, mas eu não sabia muito bem no que acreditar dele. Ele falava uma coisa e depois negava. Ele falou que era dono do Cesumar, dono de uma loja bem famosa cujo nome não me lembro...Quem conhecia ele sabia que ele falava que era dono de muita coisa e na verdade não era.

Você acha que ele tinha "laranjas"?

Sim, devia ter.

Ele mantinha algum tipo de contato com essas pessoas que "tocavam" as empresas dele?

Esses contatos eu não sei, porque geralmente era assim: ele ficava trancado no escritório (do apartamento), falava baixinho ao telefone, quando era no celular ele saía na sacada e encostava a porta. A maioria dos contatos dele eu desconheço.

Não te revelava certas coisas?

Não, noventa por cento não.

Ele falava que tinha dinheiro fora do país?

Ele falava isso para todo mundo, que tinha dinheiro fora. Eu acredito que ele não tenha porque quem tem dinheiro fora do país não estaria vivendo nas condições de vida que a gente estava vivendo.

Mas o apartamento que vocês moravam é um apartamento de luxo...

É verdade, era um apartamento de luxo. Só que era assim, com coisas que ele tinha comprado antes ou logo após terminar os processos penais contra ele. Coisas que ele tinha na época em que ele desviou dinheiro da prefeitura. Coisa nova não tinha lá. O apartamento era de luxo, só que era alugado.

Ele pagava o aluguel ou outra pessoa bancava?

Ele falou que alugava. Eu encontrei o contrato de aluguel lá, só que como era ele nunca falou. Eu não sei como era.

O condomínio ele pagava em dia?

Não, com muita dificuldade. Se for ver a situação, com muita dificuldade. Tinha condomínios atrasados, talão de luz, tinha telefone atrasado. Ele usou a minha conta bancária, usou cheque meu, cartão de crédito para pagar a diarista que limpou o apartamento porque ele não tinha dinheiro para pagar e ela não queria ficar sem receber. Não tinha interesse patrimonial, não tinha patrimônio. Como eu iria me beneficiar de alguma forma?

Você me revelou que a relação com o seu pai nunca foi boa...

Não, das melhores nunca foi.

Por que motivo? Seria por causa da sua opção sexual?

Só se ele desconfiasse e não soubesse chegar e falar porque na minha família ninguém sabia. Eu conversava muito pouco com o meu pai. Com o meu pai o relacionamento era mais restrito.

A polícia diz que o seu pai participou do crime, transportando o Eder e dando cobertura para a concretização. É verdade?

Não. Ele não teve participação nenhuma, nenhuma. Se ele participou levando o Eder, ele não sabia o que estava acontecendo. Se souber, ele não falou comigo.

Mas a polícia diz que você e o Eder confirmaram o envolvimento de seu pai...

Nas condições em que eles (polícia) me perguntaram isso, eu queria responder tudo da forma como eles queriam.

Qual foi sua participação real na morte de Paolicchi?

Pedi para que ele fosse morto para que eu pudesse voltar para a minha cidade.

Porque você escolheu aquela data para que o Paolicchi fosse morto?

Foi coincidência, acaso mesmo. Não tinha como saber quando a minha avó iria ser internada. Não tem como dizer que foi premeditado. Foi por impulso.

Você chegou a se arrepender do crime?

Me arrependi no mesmo momento. Quando eu voltei para o apartamento, fiquei acordado aquela noite, fiquei preocupado, naquele instante já tinha me arrependido. Eu tentei suicídio. Tomei vários remédios para dormir, antidepressivos, várias cartelas. Eu tive que sair do apartamento, tive que ir para a casa de uma amiga, essa amiga trabalha e estuda. Então quando ela chegou e viu que eu não acordava, que eu estava gelado, ela chamou o Samu.

Você chegou a ir para o hospital?

Não. Fui socorrido lá no apartamento mesmo. Se o Samu fez algum registro, está lá.

Em algum momento você chegou a pensar que este crime não seria desvendado?

Não. Eu falei com o advogado e a gente procurou a delegacia, mas eles estavam bem atarefados no dia que a gente veio. Ficamos esperando uma hora quase aqui fora, mas não quiseram atender. Colocamos a disposição, deixei meu endereço... Em nenhum momento eu tentei fugir, me esconder do que tinha acontecido.

Você pensou em confessar o crime?

Pensei. A gente não teve a oportunidade de falar com o delegado. O advogado disse que tentou por várias vezes entrar em contato por telefone para marcar um outro dia para poder vir aqui, mas não retornaram a ligação.

Quantos dias depois do crime você veio com o advogado?

Uma semana depois. Foi quando eles estavam com uma operação grande (prisão da quadrilha de ladrões de ônibus de turismo) e disseram que naquele momento não podiam atender. Se perguntassem, iria abrir o jogo.

Então por que não voltou outro dia e confessou?

A gente tentou, ficou à disposição da polícia, mas eles estavam muito ocupados e não nos atenderam. A única coisa foi esperar.

Quando a polícia invadiu a sua casa você percebeu que era o desfecho do caso?

Sim.

Você se assustou na hora?

Num primeiro momento, sim. A minha mãe ficou desesperada.

Você é um rapaz com boa profissão, já estudou bastante, possui um amplo conhecimento, nunca se envolveu em crime. O que mexeu tanto com a sua cabeça que te levou a planejar este crime?

Eu estava trancado dentro de um apartamento, com uma pessoa que estava querendo que eu morresse, me maltratava o tempo todo... eu não consegui encontrar outra saída. Se eu procurasse a polícia, sabia que no outro dia ele iria entrar em contato com algum bandido aqui de Maringá, como ele tinha muito contato com este tipo de pessoa, que iria me matar. Eu tenho medo de até alguma coisa acontecer comigo aqui (na cadeia).

O que você teria a dizer para a sua mãe e para a população de Maringá que acompanhou todo caso desde o início? Você já foi gerente de um banco. Você acha que decepcionou muita gente?

Para a minha mãe eu tenho de pedir perdão (choro). Eu acabei envolvendo a minha família inteira (choro). Para a população de Maringá eu não sei o que falar. Eu decepcionei muita gente, com certeza. Eu estou decepcionado comigo mesmo.

 

fonte: odiario.com

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