ENTENDA A HISTORIA DE PAOLICCHI, INFANCIA, MUDANÇA DE NOME, ASCENSÃO E QUEDA

30/10/2011 11:06

"Ele mudou muito depois que foi para Maringá." Esta é a opinião dos que conviveram com Luiz Antônio Paolicchi em Moreira Sales, cidade paranaense onde nasceu, formou-se e trabalhou até o começo da década de 1980.
Ou seria melhor se referir ao jovem de então como Aparecido Antonio Pauliqui? Em ascensão social, achou que o nome com o qual foi registrado em 13 de dezembro de 1956 não era mais adequado.

Trocou "Pauliqui" por "Paulichi"; depois, esqueceu do Aparecido, inventou o Luis e aprimorou a grafia do nome para o complicado "Paolicchi". Aparecido Pauliqui ficou apenas na memória de antigos conterrâneos.

"Trocar de registro não é tão simples assim quando o nome não é vexatório. Coisa de quem tem influência", diz o cartorário Adalberto Pronsati, que estudou com o ex-secretário.

Paolicchi visitou Pronsati há cerca de dez dias, na última visita que fez a Moreira Salles, para tratar de documentos da mãe. O cartorário percebeu que o amigo de infância estava "extremamente tenso", mas Paolicchi não quis dizer as razões. "Ele apenas disse que estava preocupado", afirma.

Na cidade, o sentimento geral é de pasme pela tragédia de "Pauliquinho", aquele homem de quem poucos se lembram, mas todos já ouviram falar.


Simplicidade e discrição

A troca de nomes foi a mudança mais superficial de Paolicchi. Esqueçam a imagem do homem esbanjador: ele era "simples", "discreto", "aluno aplicado". Bem verdade que todas as descrições também o apontam como "generoso", característica que Luis Antônio manteria em comum com Aparecido.

Na certidão de nascimento, está registrado como filho do lavrador Marino Pauliqui (falecido em 1988) e da doméstica Thereza Belloso. O futuro milionário passou toda a infância num pequeno sítio. "Pode perguntar que qualquer um vai dizer como ele era um amor", lembra a comerciante Dinha Liberal, vizinha de Paolicchi na infância.

O rapaz era tão simpático e cativante que não sofreu preconceitos na juventude por causa da homossexualidade, ainda que vivendo em cidade interiorana.

"Ele tinha um jeito diferente, mas nunca ninguém condenou. Em Maringá que ele foi se descobrir", afirma Dinha. O amigo de juventude Marco Adamo, fotógrafo na cidade, é mais direto. "Todo mundo andava com namoradas; ele não. Então havia certos rumores. Mas ele era muito discreto aqui."

 





 o ex-secretário em dois momentos; trabalhando e preso

Ascensão e queda

Brilhante aluno, o jovem Paolicchi trabalhou como contador na Prefeitura de Moreira Sales durante a gestão de Euclides Franzo (1976-1982). "Lá ele aprendeu os caminhos", diz o amigo Adamo. De Moreira Sales, seguiu para Paiçandu, onde também trabalhou na prefeitura.

Em Maringá, chegou no fim da década de 80 e conquistou o poder e a influência que sempre quis.

Nos primeiros anos fora da cidade natal, costumava voltar ao município com frequência. Contribuindo financeiramente com escolas, igrejas e bibliotecas, ganhou status de filho pródigo, quase um ídolo.

Depois dos escândalos de corrupção, que estouraram no ano 2000, os vínculos com Moreira Sales afrouxaram. Mesmo os amigos não parecem acreditar na inocência de Paolicchi no caso, mas ainda falam dele com carinho, movidos pelas memórias do passado.

"Eu achava que ele seria "dez", não sei o que aconteceu, política é assim mesmo", conta Dinha; "Foi bastante chocante descobrir isso, era uma pessoa boa, família excelente", afirma Adamo.

O cartorário Pronsati tem palavras mais pesadas, mas ainda mantém espaço para a ternura. "Ficou uma situação que, quando digo que sou de Moreira Sales, todo mundo já fala: ‘ah, a terra do Paolicchi??. Ficamos desapontados, principalmente pela educação que os pais deram para ele, excelente. Mas sempre que ele voltava aqui eu o tratava com amizade, com a gente ele sempre foi muito bom."

Se Paolicchi deixou Moreira Sales um pouco de lado, de uma moreirassalense ele nunca descuidou: a mãe Thereza era tratada "como uma rainha, com direito a empregadas e enfermeira". O vínculo entre os dois era tão forte que a família buscou poupar a senhora octogenária, não informando a causa da morte: para Thereza, o filho se foi por causa de um ataque cardíaco.

A definição mais simbólica do sentimento de Moreira Sales por Paolicchi é dada pelo vice-prefeito, Ariosvaldo Fodra (PSDB) – de quebra, uma boa representação do "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda: "Pela ajuda que deu para a cidade, tenho mais consideração do que condenação por ele. Corrupção tem no Brasil 24 horas por dia."

 

Fortuna Deixada não Cobre o Rombo.

 

O ex-secretário da Fazenda de Maringá Luiz Antônio Paolicchi, encontrado morto na sexta-feira, deixou uma fortuna em imóveis confiscados pela Justiça e que aguardam julgamento.

São oito fazendas, uma chácara, um apartamento, uma sala comercial e uma mineradora de águas, avaliados em mais de R$ 50 milhões – um décimo do que, em valores atualizados, ele teria desviado da prefeitura em parceria com o ex-prefeito Jairo Gianoto.

As oito fazendas deixadas por Paolicchi somam 3.200 alqueires, o equivalente 163 parques do Ingá. Caso todas essas propriedades formassem um quadrado, cada lado teria o tamanho de seis avenidas Paraná. São seis propriedades em Três Lagoas (MS) e duas em Nova Mutum (MT). O valor das propriedades rurais ultrapassa R$ 40 milhões.

Além das fazendas, Paolicchi deixou um apartamento em Balneário Camboriú, avaliado em R$ 1 milhão, uma sala comercial em Maringá, estimada em R$ 80 mil, além de três colheitadeiras – que estão em uma das fazendas – além de três picapes: uma Ford F-1000, uma Ford F-4000 e uma Saveiro. Consta que todos esses bens estão envolvidos nas dezenas de processos que aguardam julgamento pelo desvio de recursos do município.

O destino dos imóveis ainda está indefinido. Uma mesma propriedade pode estar em ações movidas pelos desvios da prefeitura, sonegação fiscal e dívidas trabalhistas. Quem leva a pior é a prefeitura, foco dos desvios. A legisçlação prevê prioridade para o pagamento das dívidas trabalhistas e dos impostos. O que sobrar será restituído ao município.

A Mineradora de Águas Rainha, detentora da marca Safira, está sob intervenção da Justiça Federal. O objetivo é que a empresa siga funcionando até pagar os valores sonegados para a União e o Estado – para daí ser leiloada.

O interventor nomeado pela Justiça, Fernando Serrano, estima que serão necessários, no mínimo, 15 anos para que a empresa pague tudo o que está devendo.

Ele avalia que a dívida está entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões, somados os valores de impostos sonegados, fornecedores, e contas de ações trabalhistas. "A empresa só compra dos fornecedores à vista, porque está com o nome sujo na praça", diz Serrano.

 

Consta que o apartamento que Paolicchi morava, entre as zonas 1 e 4, seria alugado. O imóvel não é citado nas ações que ele responde.

São cerca de dez ações cíveis e uma criminal contra Paolicchi na Justiça Estadual – sem contar os processos trabalhistas. Na Justiça Federal ele é citado em dez processos criminais e seis da Fazenda Nacional.

Segundo advogados e leiloeiros consultados pela reportagem, os únicos bens de Paolicchi que já foram leiloados e tiveram o valor restituído aos cofres públicos foram um relógio Rolex, avaliado em R$ 28 mil, duas canetas Mont Blanc, uma avaliada em R$ 2,5 mil e outra em R$ 1,5 mil, e um jipe Cherokee ano 99, avaliado em R$ 69 mil.

O ex-secretário chegou a ter avião e helicóptero. O jato ele teria vendido para Jairo Gianoto, e o helicóptero foi apreendido – estaria sendo utilizado pela União.

De acordo com o advogado Oséias Martins Barboza, que defendeu Paolicchi nas ações civis apresentadas pelo Ministério Público para cobrar o ressarcimento aos cofres municipais, os processos continuam normalmente com a cobrança do espólio de ex-secretário.

 

Agilidade
"A culpa dele (Paolicchi) não
se discutia mais. A demora
no trâmite final se deve aos
outros réus dos processos"
Oséias Martins Barboza
Advogado que defendeu
Paolicchi
 

Barboza, que automaticamente deixa de ser o procurador de Paolicchi nos processos, explica que a pessoa da família que por ventura assumir o espólio vai ter que contratar um advogado para dar continuidade na defesa das ações. "Já no caso de ninguém assumir o espólio, a Justiça deve nomear um curador para que os processos prossigam", explica.

 

O advogado também disse que a morosidade dos processos não tinha relação com a defesa de Paolicchi. O motivo é que o ex-secretário já havia confessado os crimes praticados contra a administração pública na esfera criminal, sendo inclusive condenado.

 

Safira
"A empresa só compra dos
fornecedores à vista, porque está
com o nome sujo na praça"
Fernando Serrano
Interventor da Águas Rainha
 

"A culpa dele (Paolicchi) não se discutia mais. A demora no trâmite final se deve aos outros réus dos processos, que continuam a se defender das acusações de envolvimento nos desvios", diz. Por conta disto, a maioria dos processos ainda se encontra em fase inicial.

 

Ao mesmo tempo, as duas primeiras ações protocoladas pelo Ministério Público do Paraná contra Paolicchi se encontram na fase final, de execução de sentença, e em breve os primeiros imóveis que foram penhorados pela Justiça devem ir a leilão para pagar os desvios na prefeitura e as dívidas com a União.

 

Alugado

 

 

—————

Voltar